Blues
Quando
Fernando Xavier me pediu que escrevesse um texto sobre Blues, confesso
que engoli no seco. Imaginei como seria difícil me concentrar
no papel tendo as notas agridoces do Blues permeando a minha cabeça
o tempo todo. Quer saber? Tomei um gole de Bourbon , coloquei o
disco de B.B. King na vitrola e me envolvi nesse estilo musical,
que mais parece um estado de espírito. É verdade.
O Blues é a música da alma. Aqueles trabalhadores
negros (hollers) que improvisavam versos melancólicos entre
as plantações americanas de algodão, cantavam
do fundo d'alma. No início do século XX, o Blues nascia
da poesia e do lamento de trabalhadores que nada conheciam de partituras
e escalas musicais, mas sabiam a arte de improvisar a voz e um instrumento.
Com a simplicidade de 12 compassos e três versos, o Blues
correu as fronteiras do Delta do Mississipi e popularizou-se após
a Guerra Civil dos Estados Unidos. Músicos itinerantes e
emancipados, viajavam de uma comunidade à outra levando guitarra,
gaita e cantando versos de amor e liberdade. Grandes nomes como
Charlie Patton, Robert Johnson, Son House (que desenvolveu a técnica
da guitarra com o gargalo de garrafa- slide guitar) estavam entre
estes homens. À procura de trabalho, os negros americanos
migraram para áreas urbanas.
Assim, Memphis e New Orleans situavam o fenômeno do Blues
sob "vozeirões" de homens e mulheres acompanhados
de um belo piano. Bessie Smith, ou a Imperatriz do Blues (como ficou
conhecida) era uma destas mulheres. Louis Armstrong, Jelly Roll
Morton, Gertrude Rainey, dominaram a paisagem musical do Blues clássico.
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o Blues mudou-se de mala e
cuia para Chicago, onde amplificou o som dos violões e tambores.
Eram os acordes do Blues elétrico de músicos como
Muddy Waters, B.B. King, Buddy Guy, Willie Dixon, que intensificavam
a importância do gênero para mais tarde, os brancos
do rock and roll transformarem seu ritmo e forma. Apesar do Blues
ser tradicional da terra do tio Sam, o Brasil possui grandes "blueseiros"
. Bandas como Blues Etílicos, Big Allanbik, Baseado em Blues
e músicos como André Christovam dispensam elogios
e enaltecem o Blues Nacional. Mesmo sendo o Samba coisa nossa, o
Blues cativa cada vez mais brasileiros. Afinal, Samba e Blues tem
a mesma raiz negra e aquela pitada de lamentação que
só faz bem aos ouvidos. Não tem um sambinha que diz
"Cantando eu mando a tristeza embora"? Então, aqueles
trabalhadores negros das plantações de algodão
sabiam o que estavam fazendo...
Rosália
do Vale
Jornalista
http://rosaliadovale.cjb.net
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